Julho 9, 2008

Um pouco mais do mesmo

Ontem acordei com a empolgada voz de Ricardo Boechat, da BandNews, anunciando a operação Satiagraha da Polícia Federal. Eram pouco mais de seis e meia da manhã, e Celso Pitta, Naji Nahas e Daniel Dantas estavam com as horas de liberdade contadas.

Houve uma época em que falar de política era muito, muito perigoso. Jornais centralizavam suas matérias de Economia, Esportes e Cidades, talvez como forma de compensar o primeiro assunto, silenciado deliberadamente.

Falar de corrupção era o máximo permitido, e o governo, salvo ignorância do nome que encima essas linhas, nunca acusou a imprensa de ser extremo-esquerdista, mas também pouco fez para combater o mal-do-século tupiniquim. A situação mudou muito de lá para cá? Falar de política não é mais tão perigoso, mas, e mais uma vez salvo engano, não há interesse em ir além do superficial. Escândalos de corrupção são explorados até o momento em que Ibope ou a tiragem de jornais e revistas avalizam a cobertura. Além disso, transcender o óbvio ficou muito chato.

Na tarde de ontem, o deputado Paulo Pereira da Silva, o Paulinho da Força, apresentou sua defesa perante a Comissão Parlamentar de Inquérito. Não sei se era medo ou apenas desejo de mostrar que, apesar de sindicalista, era alfabetizado, mas vossa excelência leu toda a sua defesa segurando tremulamente algumas folhas. Espetáculo deprimente e um prenúncio dos tempos sombrios que nos assolam. Além de ser chato falar de política, aqueles que o fazem além da conta são tachados, e isso o próprio Paulinho nos deu o exemplo, de extremo-direitistas ou, se o acusado for um pouco complacente, anti-governo.

Com a operação da PF, pouco se cobriu da defesa de Paulinho. Se é proposital ou não, a resposta não cabe a mim. Mas está cada vez mais evidente que, das instituições da Nova República, a única que foi preservada dos assanhos petistas foi a própria Polícia Federal. Preservada para fazer operações mirabolantes, com nomes esdrúxulos para, atacando um tipo de corrupção, ocultar outra. Há o STF, mas cito aqui um trecho da entrevista que o então ministro Moreira Alves deu à FSP em 11/12/1997, pertinente, julgo eu, até os dias de hoje: “O Supremo está falido. Nós é que não estamos dizendo ao Brasil que isso aconteceu”.

Julho 4, 2008

São 40 milhões em ação…

O rombo das estatais elétricas do norte-nordeste, noticiado quase-que-exclusivamente pela jornalista Sonia Racy, do Estadão, dá margem para algumas considerações:

1. Nesses rincões, energia é sinônimo de favor político, não de setor estratégico. Cargos técnicos são preenchidos por afilhados de grandes caciques, sejam eles o Ministro Lobão ou, no caso do Amapá, por um senador que gosta muito de falar em ” pudêr”: José Sarney. O déficit dessas companhias é inversamente proporcional ao lucro das empresas do mesmo setor aqui no Sudeste, o que sugere que a privatização das eletros norte-nordeste não significa escancarar o patrimônio público para o interesse privado. É simplesmente garantir um serviço fundamental e despolitizar gestões técnico-burocráticas.

2. Hoje cerca de 40 milhões de pessoas foram prejudicadas por uma pane geral da Telefonica (sic), que afetou diretamente as conexões ao Speedy. Poupatempo, delegacias, repartições públicas e residências ficaram sem internet. A Telesp foi privatizada e o monopólio da Telefonica é evidente. Não pensem que fiquei triste com isso: assino NET Combo, e estou feliz à beça.

Julho 3, 2008

Liberdade, estranha liberdade

Ingrid Betancourt, durante coletiva de imprensa

Ingrid Betancourt voltou ao reino dos vivo há poucas horas. Do que ficou claro até aqui, temos o seguinte:

1. A ex-refém está um tanto bojudinha para alguém que teria passado seis anos na selva comendo terra e sobrevivendo com hepatite B e leshmaniose. Será que os terroristas, apesar dos pesares, não a violentaram e a trataram a pão-de-ló? Será que já estava resgatada há mais tempo?

2. A encenação toda deu claro indício de que houve negociação para libertação da Ingrid e de outros 14 reféns. O uniforme militar e o discurso (“não penso em presidência agora; sou apenas mais um soldado a lutar por meu país”, declarou em coletiva) indicam tentativa de resgate de influência do presidente Uribe. As tentativas erráticas de Chávez & Cia. Ltda. foram rechaçadas abertamente pela ex-presidenciável, que, obviamente, passará longe de Miraflores.

3. A Suprema Corte Colombiana prevê um referendo popular para avaliar se o pleito de 2006 deve ser refeito. Com o resgate de Ingrid e o estratosférico índice de popularidade de Uribe Vélez, o referendo pode ser outro: o do terceiro mandato.

Julho 1, 2008

Partido fariano?

O jornal colombiano El Tiempo publicou ontem matéria citando uma fonte da Casa de Nariño, segundo a qual dois representantes europeus – um francês e um suísso – foram enviados para negociar diretamente com as Farc.

Jean Pierre Gontard, assessor da chancelaria suíssa, e Noelz Saez, ex-cônsul-geral da França na Colômbia e cunhado de Ingrid Betancourt, estariam há três dias buscando contato e a delimitação de uma área neutra para retomar as negociações para libertação de reféns.

O Le Figaro destaca ainda que esse é o primeiro encontro direto entre um membro do comando das Farc e algum enviado político. Talvez, supõe o jornal, seja reflexo do viés majoritariamente político do novo guerrilheiro-mor, ‘Alfonso Cano’, que assumiu o comando das Farc após a morte de Manuel Marulanda.

De qualquer forma, destaca o jornal, houve uma mudança de comportamento em ambos os lados. A União Européia parece disposta a, esgotada todas as possibilidades, conversar com guerrilheiros; estes, por sua vez, talvez tenham percebido que com Uribe ninguém pode, e, com isso, queiram trocar armas pelo voto.

Perderiam de qualquer maneira, mas pelo menos a “farándula terrorista”, como disse o presidente colombiano, lutaria num campo neutro. O que espera um Partido Fariano?

Junho 30, 2008

Roda Mundo

A Fapesp e a TV Cultura deram de presente ao público o portal “Memória Roda Viva“, que permite ao internauta acessar o baú de entrevistas do programa, no ar desde 1986. A iniciativa teve também a participação da Unicamp, por meio do Labjor (Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo) e do Nepp (Núcleo de Estudos em Políticas Públicas).

O lançamento do portal causa efeito, salvo engano, inesperado: resgatar a memória do Roda Viva permite traçar comparações entre aquilo que foi e que já não é mais. Minha audiência assídua ao programa foi seriamente comprometida depois do milésimo programa. Na ocasião, percebi que a comemoração suplantava o interesse público, que a assepsia sobrepujava o questionamento, que a aura de preservação da imagem, tão cara à assessoria de imprensa, era maior que o jornalismo. Posso estar novamente equivocado, mas essas são, em linhas gerais, as diretrizes do programa desde então. É por isso que fico com o antigo Roda Viva, e não abro mão disso.