Setembro 27, 2008...2:30 pm

Observando índios

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Nota: essa matéria data de maio de 2006. Àquela época, o texto foi publicado no portal cotiatododia, mas, não se sabe por qual razão, o link para a matéria desapareceu. O principal motivo de sua republicação, passados dois anos, é prestar homenagem ao meu grande amigo Ryszard Polski (tradução ao pé-da-letra: Ricardo, o polonês), artista plástico de qualidades supreendentes e que, ao dedicar parte de sua vida aos índios do Alto Xingu, encontrou um par de orelhas sempre fiel para escutar suas histórias: eu mesmo.

Observando índios

A mostra “Olhar Índio”, que reúne as principais obras do artista plástico Ryszard Polski, ficará no Teatro Municipal de Osasco até a próxima sexta-feira, dia 26.

Lançada oficialmente em 20 de abril, a exposição “Olha Índio”, do artista plástico Ryszard Polski, 54, conta com 23 telas que retratam o cotidiano dos índios da aldeia Yawalapiti (lê-se Iaua-la-pití), habitantes do Parque Indígena do Xingu, no Estado de Mato Grosso.

Até sexta-feira, data de encerramento, a mostra completará 38 dias de exposição. Nesse período, o saguão do Teatro Municipal de Osasco ofereceu um atrativo a mais àqueles que vieram assistir à programação em cartaz.

A mostra

Os quadros de Ryszard Polski registram cenas cotidianas da vida na aldeia yawalapiti. Os temas variam da luta do huka huka - duelo realizado após a festa do Kuarup, maior celebração das tribos xinguanas -, passando por afazeres domésticos, como mostrado na tela “Pão da vida”, na qual uma índia, linda como Iracema, amassa a mistura de farinha de mandioca com água para fazer moquecas.

A sabedoria dos integrantes mais velhos da tribo está presente nas telas “rio da sabedoria” e “olhar índio 10″, óleos sobre tela que mostram, respectivamente, um senil se banhando calmamente nas águas do Kuluene e outro, igualmente senil, olhando para baixo, humildemente.

A leitura dos quadros sugere uma relação direta com um escrito de Leonardo da Vinci: “Pouco conhecimento faz que as criaturas se sintam orgulhosas. Muito conhecimento, que se sintam humildes. É assim que as espigas sem grãos erguem desdenhosamente a cabeça para o céu, enquanto que as cheias as baixam para a terra, sua mãe”.

A obra de Ryszard Polski transparece, assim, o esforço de um artista que tenta, em primeiro lugar, compreender o mundo, não transformá-lo. O registro da cultura indígena ali presente é tão sincero e fiel às origens quanto os relatos dos primeiros antropólogos que, a partir da década de 30 do século passado, debruçaram-se sobre o tema, como o belga Claude Lévi-Strauss (1908 – ).

Só que Polski não está preocupado com as possíveis interpretações da cultura indígena, que geralmente partem de um ponto de vista civilizado e desaguam no debate ideológico. O artista plástico reflete em suas telas o esmero que teve em reproduzir cada detalhe do corpo (índio), da estrutura (aldeia) e do ambiente (floresta) que compõe o Xingu. Num mundo cada vez mais materialista, rotineiro e entediante, mergulhar na cultura indígena, que ainda tem tanto a nos ensinar, é uma boa opção para fugir da nossa selva, que é de pedra.

A obra e o artista

Não é a primeira vez que Ryszard Polski expõe seu trabalho no Teatro de Osasco. Em 1999 ele apresentou ao público a exposição “Alma Yanomami”, inspirada em fotos que o tio dele, Tadeu Rumpel, havia registrado em 1956. Ryszard aproveitou o ensejo e viajou para a região do Alto Rio Negro, Estado do Amazonas, em 1998, entrando em contato com a cultura silvícola local.

Em 1999, Ryszard viajou para o Parque Indígena do Xingu, um território do tamanho da Bélgica encravado no Estado de Mato Grosso, com 16 nações indígenas e população total de quase quatro mil habitantes, dados do IBGE em 2002. Incentivado pelo amigo Orlando Villas Bôas (1914-2002), Ryszard se hospedou por 20 dias na aldeia Yawalapiti e conheceu o cacique Aritana, que cresceu ao lado dos irmãos Villas Bôas e hoje é tido como o porta-voz do povo xinguano.

A viagem ao Xingu resultou na mostra “Alma de gigante – tributo a Orlando Villas Bôas”, que ficou em cartaz ao longo de abril de 2001. Dois anos depois, Ryszard voltaria ao Xingu para presenciar o Kuarup (festa dos mortos) em homenagem a Orlando, morto em 2002.

O trabalho de Ryszard Polski obteve reconhecimento dentro e fora do país. Seus quadros já circularam pela Abach (Academia Brasileira de Arte, Cultura e História), pela Assembléia Legislativa do Estado e por exposições diversas na Capital, Grande São Paulo e Interior. Em 2004, Polski foi agraciado com a medalha de ouro na Exposição de Arte Brasileira na cidade de Friedrischhafen, Alemanha.

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