Fonte: Revista Câmbio, 31 de julho de 2008.
[TRADUÇÃO LIVRE]
O dossiê brasileiro
O computador de Raúl Reyes revela que os vínculos das Farc com altos funcionários do governo do Brasil, entre eles cinco ministros, chegaram a níveis escandalosos.
Ao entardecer do sábado, 19 de julho, na fazenda Hatogrande (residência presidencial ao norte de Bogotá), o presidente Álvaro Uribe, descontraído e sorrindo atipicamente, não hesitou em oferecer um cálice de aguardente antioquenho ao seu homólogo brasileiro Luís Inácio Lula da Silva, para mitigar o frio de tremer os ossos.
O cálice fechou a primeira parte da intensa jornada que havia começado na sexta-feira [18] , e que terminaria no domingo em Letícia [localizada no “trapézio” amazônico, na divisa com Brasil e Peru] com a celebração do Dia da Independência. Uma celebração que, como nunca antes naquele país, congregou artistas de peso como Shakira e que contou também com a presença de Alan Garcia, presidente peruano.
O encontro Lula-Uribe, que girou em torno de acordos bilaterais, foi permeado de elogios públicos. O presidente Uribe agradeceu a Lula e ao seu governo pelos seis anos de relações dinâmicas e de confiança recíproca. No entanto, o fez em uma reunião privada, ante uma platéia diminuta. Uribe resumiu para Lula o conteúdo de uma série de arquivos que as autoridades colombianas encontraram nos computadores de Raúl Reyes, documentos esses que vinculariam cidadãos e funcionários brasileiros às Farc.
Ao contrário da ênfase dada às informações relacionadas a servidores públicos e a cidadãos equatorianos, o Governo colombiano adotou uma postura reservada e manejou diplomaticamente os dados para não deteriorar as relações comerciais e de cooperação com o governo Lula.
Bogotá tem usado de forma seletiva os arquivos do computador de Raúl Reyes. Se os usou para censurar Equador e Venezuela, com o Brasil tem lidado discretamente para não comprometer Lula da Silva, que se mostrou mais hábil e menos ardiloso com a Colômbia do que seus colegas.
Mesmo assim, alguns jornais brasileiros obtiveram informações parciais sobre uma parcela dos arquivos, e, por isso, em 27 de julho, consultaram Juan Manuel Santos, ministro da Defesa colombiano, que concedeu uma entrevista a O Estado de S. Paulo, na qual confirmou que a Casa de Nariño havia informado Lula sobre o tema. “Há uma série de informações de conexões que entregamos ao governo brasileiro para que aja como achar melhor”, disse Santos, abstendo-se de comentar se havia ou não políticos e funcionários oficiais com nexos com o grupo guerrilheiro hoje encabeçado por Alfonso Cano.
O assessor de política internacional de Brasília, Marco Aurélio Garcia, rebateu imediatamente as declarações do ministro, classificando os dados fornecidos por Bogotá como “irrelevantes”.
“O padre Camilo”
Não se sabe exatamente o conteúdo das informações que o presidente Uribe encaminhou a Lula, mas o que se pode chamar de “dossiê brasileiro” tem potencial para trazer implicações tão sérias quanto os dados relacionados à Venezuela e ao Equador.
CAMBIO teve acesso a 85 e-mails que, entre fevereiro de 1999 e fevereiro de 2008, circularam entre “Tirofijo” [Pedro Antonio Marín, chefe supremo das Farc e morto em 26 de março], “Raúl Reyes” [morto em primeiro de março] , o “Mono Jojoy” [morto em 11 de maio], “Oliverio Medina” [‘delegado’ das Farc no Brasil’] e dois homens identificados como “Hermes e “José Luís”.
A julgar pelo conteúdo das mensagens, a presença da Farc no Brasil chegou até o alto escalão do governo Lula, do PT, de lideranças políticas e do Judiciário. Essas mensagens fazem menção a cinco ministros, um procurador geral, um assessor especial do Presidente, um vice-ministro, cinco deputados, um vereador e um juiz superior.
A personagem central das mensagens é “Oliverio Medina”, também conhecido como “Padre Camilo”, um sacerdote que ingressou nas Farc em 1983 e que, em ascensão meteórica, chegou a ser secretário de “Tirofijo”. Chegou ao Brasil como delegado especial das Farc em 1997 e esteve na Colômbia durante o “Processo do Caguán” [iniciativa do ex-presidente Andrés Pastrana (1998-2002) que, a partir da cidade de San Vicente del Caguán, estabeleceu uma área desmilitarizada de 42 mil km², sob a jurisdição das Farc], no qual atuou como assessor de imprensa do grupo guerrilheiro.
Depois de interromper as conversações em fevereiro de 2002, regressou ao Brasil, de onde continuou sua missão, e sua influência chegou até a cúpula da administração de Lula, que assumiu o cargo em janeiro de 2003. Graças à pressão das autoridades colombianas, Medina foi capturado em agosto de 2005. A Colômbia pediu sua extradição, mas o STF não só negou o pedido em 22 de março de 2007, como também deu a ele a condição de refugiado político.
Até à cúpula
A prisão não foi obstáculo para que o “Padre Camilo” suspendesse sua atividade proselitista e propagandística. Prova disso são os inúmeros e-mails que enviou a Raúl Reyes e que mostram como conseguiu chegar à cúpula do governo brasileiro.
Quatro dos e-mails a que CAMBIO teve acesso se referem ao presidente Lula. Em um deles, datado de 17 de julho de 2004, Raúl Reyes diz a “Tirofijo” que o governo de Lula ofereceria ajuda quanto ao acordo humanitário: “Os caras me enviaram uma carta pedindo entrevista com eles no Brasil” – escreve Reyes. Segundo a mensagem, alguém falou com Lula e ele assumiu o compromisso de ajudar no acordo humanitário, intercedendo ante Uribe para sediar a reunião no Brasil.
No segundo, datado de 25 de setembro de 2006, Oliverio Medina conta a Reyes: “Não lhe havia dito que há alguns dias Lula chamou Paulo Vanucchi (ministro da Secretaria Nacional de Direitos Humanos), dizendo-lhe que telefonara ao advogado Ulisses Riedel e o felicitara pelo êxito jurídico em sua brilhante defesa a favor do meu asilo”.
No terceiro, de 23 de dezembro de 2006, Medina informa a Reyes que enviou “cartões de natal a Lula e a dois assessores que nos têm ajudado”. Os funcionários são Silvino Heck, assessor especial do presidente, e Gilberto Carvalho, chefe de gabinete, que aparecem em outra mensagem, também data em 23 de dezembro e dirigida a Reyes: “É provável que receba a visita de um assessor especial de Lula chamado Silvino Heck, que, junto com Gilberto Carvalho, tem nos ajudado bastante”.
Entre as 85 mensagens a que CAMBIO teve acesso, há uma sem data, também emitida por Medina a Reyes, que diz: “Estive conversando com a [então] deputada federal Maria José Maninha. Acordamos que ela vai me abrir caminho para o presidente via Marco Aurélio Garcia”. Garcia é o secretário de Assuntos Internacionais.
Não menos comprometedores são aqueles em que alguns ministros são mencionados. Em um deles, dirigido a Reyes em 4 de junho de 2005 por um certo “José Luís”, figura o nome do então ministro da Casa Civil, José Dirceu. “Chegou um jovem de uns 30 anos e se apresentou como Breno Altman (dirigente do PT), disse-me que vinha da parte do ministro da Casa Civil José Dirceu, e que, por motivos de segurança, haviam acordado que as relações não passariam pela Secretaria de Relações Internacionais, mas que se fizesse diretamente por meio do ministro com a representação de Breno”.
Ao final da mensagem, “José Luís” disse que o governo brasileiro e o PT darão proteção a Medina à medida que o trâmite de extradição avançar: “Perguntei se poderíamos estar tranqüilos, que não iriam seqüestrá-lo ou deportá-lo para a Colômbia e ele respondeu: ‘Podem estar tranqüilos’”.
Em um correio de 24 de junho de 2004, Reyes comenta a Medina sobre a possível saída de Dirceu do Gabinete e disse: “Se confirmada, essa medida oportunista dos detratores de Lila pode afetar a incipiente abertura das relações para conosco”.
As Farc também tentaram chegar ao despacho do ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim. Em um correio de 22 de fevereiro de 2004, “José Luís” escreve a Reyes: “Por intermédio do lendário líder petista Plínio Arruda Sampaio, chegamos a Celso Amorim, atual ministro das Relações Exteriores. Plínio pediu para falarmos com Albertão (vereador de Guarulhos), que disse que o Ministro está disposto a nos receber e que, assim que tiver um espaço em sua agenda, nos receberá em Brasília”.
O procurador e o juiz
O embaixador das Farc desempenhou tão bem o seu ofício que também obteve êxito em chegar ao procurador Luís Francisco de Souza, que é mencionado em um extenso e-mail de 22 de agosto de 2004, enviado por Medina e “José Luís” a Reyes e Rodrigo Granda: “Ele [Souza] nos deu o seguinte conselho: andar com uma máquina fotográfica e, se possível, com um gravador para caso de algum agente de informação nos parar novamente. Devemos fotografá-lo e gravá-lo, tomando cuidado para não permitir que tomem o equipamento. E que, com relação ao sucedido, encaminhemos uma denúncia dirigida a ele como Procurador, para fazê-la chegar ao chefe da PF e da ABIn”.
Algumas mensagens foram escritas durante o processo de Caguán e abarcam um prestigioso juiz e um ex-oficial de alto escalão das Forças Armadas brasileiras. Por exemplo: em mensagem de 19 de abril de 2001, “Maurício Malverde” informa a Reyes: “O juiz Rui Portanova, nosso amigo, nos disse que deseja ir aos acampamentos para receber instruções e conhecer a vida das Farc. Custeie sua viagem”. Portanova era então juiz do Superior Tribunal Estadual do Rio Grande do Sul.
Três dias antes, em 16 de abril, Medina relata a Reyes um encontro de Raimundo, Pedro Enrique e Celso Brand – ao que parece, elos das Farc no Brasil – com o Brigadeiro-do-ar Ivan Moacyr da Frota, ex-comandante da FAB. “O homem se interessou e disse que gostaria de um encontro pessoal com a gente. Disse que estão começando a madurar os planos de tomada da base de Alcântara pelas forças nacionalistas para impedir que os EUA fiquem com 600 quilômetros que estão sob seu domínio”.
A pequena mostra dos 85 correios eletrônicos vistos por CAMBIO revela a importância do Brasil para a agenda internacional das Farc, levada a cabo por Raúl Reyes até sua morte, e não há mais dúvidas de que o “Padre Camilo”, para afirmar a estratégia continental da guerrilha, aproveitou a conjuntura criada pela ascensão de Lula e de seu influente Partido dos Trabalhadores para chegar até as mais altas esferas do Governo.
E se é certo que os e-mails são apenas indícios de um possível compromisso do governo Lula com as Farc, visto que nenhum funcionário enviou mensagens individuais a algum membro do grupo guerrilheiro, as perguntas suscitadas com relação ao conteúdo dessas mensagens exigem uma explicação do Governo brasileiro.
Os contatos das Farc
A expansão das Farc na América Latina não envolveu apenas funcionários dos governos da Venezuela e do Equador, mas também comprometeu destacados dirigente, políticos e a cúpula do Partido dos Trabalhadores brasileiro. Ademais, o grupo guerrilheiro manteve contato com procuradores e juízes do Brasil.
- José Dirceu, ex-ministro-chefe da Casa Civil.
- Roberto Amaral, ex-ministro de Ciência e Tecnologia.
- Erika Kokay, deputada federal (PT-DF).
- Gilberto Carvalho, chefe de Gabinete da Presidência da República.
- Celso Amorim, chanceler.
- Marco Aurélio García, assessor para assuntos internacionais da Presidência da República.
- Perly Cipriano, subsecretário da Promoção dos Direitos Humanos
- Paulo Vanucci, ministro da Secretaria dos Direitos Humanos.
- Selvino Heck, assessor presidencial.
[O conteúdo das mensagens a seguir foi mantido no original em espanhol]
SECUESTRO DE NOVARTIS
20 de septiembre de 2001
De: Jorge Briceño ‘Mono Jojoy’
A: Secretariado
Edwin, viejo conocido comandante de La Policarpo junto a Julián, se robaron medio millón de dólares por una parte y 700 millones de pesos por otra, del secuestro de Novartis. Se tiraron el negocio que estaba planeado para 10 millones de verdes. Para completar, se armó un lío con México, Suiza y Brasil porque no entregábamos a los tipos. Hablé con representantes de esos países y acordamos que nos daban medio millón de dólares más y nosotros poníamos en libertad a los dos señores. Ordené soltarlos y hasta ahora no han pagado. Si se hacen los pesados pienso asustarlos”.
INVITACIÓN AL CAMPAMENTO
12 de junio de 2005
De: ‘Raúl Reyes’
A: ‘José Luis’
“Al vocero de Brasil hay que invitarlo a que nos visite aquí y explicarle que en función de construir definiciones se hace imprescindible su conversación con el Secretariado. Decirle que tenemos formas seguras de recibirlo en nuestros campamento sin que sea registrado por las autoridades colombianas”.
APOYO FINANCIERO
6 de julio de 2005
De: ‘Cura Camilo’
A: ‘Raúl Reyes’
“Solidaridad recibida durante el primer semestre de 2005: diputado Paulo Tadeu US$ 833,33. Sindicato de la Empresa de Energía de Brasilia US$ 666,66. Corriente Comunista Luis Carlos Prestes US$766,66. Señora Solene Bomtempo US$ 250,00. Concejal Leopoldo Paulino US$ 433,33. Sindicato de la Empresa de Acueducto de Brasilia US$ 33,33″.
EXTRADICIÓN DE CAMILO’
17 de septiembre de 2005
De: ‘Raúl Reyes’
A: ‘Roque’
“Bastante significativa la solidaridad de los partidos comunistas de Brasil y de otros países con la lucha de las Farc en el empeño de impedir la extradición del ‘cura’ (Francisco Medina, ‘Cura Medina’). Existe en Brasil un importante grupo de amigos solidarios con nosotros en los que hay sindicalistas, maestros, congresistas, ministros, abogados y personalidades ocupados de presionar la libertad inmediata de Camilo”.
EL EMPLEO
17 de enero de 2007
De: ‘Cura Camilo’
A: ‘Raúl Reyes’
“El lunes 15 inició ‘la Mona’ su empleo nuevo y para asegurarla o cerrarle el paso a la derecha por si en algún momento les da por molestar, entonces la dejaron en la Secretaría de Pesca desempeñándose en lo que aquí llaman un cargo de confianza ligado a la Presidencia de la República”.
GIRA POR BRASIL
15 de febrero de 2007
De: ‘Cura Camilo’
A: ‘Raúl Reyes’
Los responsables de organizar la gira del camarada Carlos Lozano son: Albertao y Pietro Lora en Guarulhos, São Pablo y Río. En Brasilia: Paulo Tadeo, Erica Kokay. Para la actividad de Río se apoyarán en el ex diputado Federal Milton Temer, del Partido Socialismo y Libertad. Y en Florianópolis un diputado estadual que ellos ayudaron y está dispuesto a ayudar”.
ENCUENTRO CON MINISTROS
23 de febrero de 2007
De: ‘Cura Camilo’
A: ‘Raúl Reyes’
“La defensora pública le está organizando a ‘la Mona’ un encuentro con el Ministro, el Viceministro y el principal asesor de la Secretaría de Derechos Humanos vinculada a la Presidencia, en su orden Paulo Vannuchi, Perly Cipriano y Dalma de Abreu Dalasi, que es un prestigioso jurista al que el ministro relator le tiene pavor. El viceministro Perly hablará con el presidente de la Comisión de Derechos Humanos de la Cámara Federal. Serán visitadas entidades importantes que nos apoyaron, comenzando por la Comisión Brasileña de Justicia y Paz”.
ACTUAR CON CAUTELA
14 de abril de 2007
De: ‘Cura Camilo’
A: ‘Raúl Reyes’
“Debo actuar con cautela para no facilitar al enemigo argumentos que lleven a cuestionar el refugio. En ese sentido, el haber conseguido el traslado de ‘la Mona’ y ‘la Timbica’ para la capital del país, ha sido importante. Ese bajo perfil lo mantendré hasta la neutralización. Obtenida esta, tendré pasaporte brasileño y lo primero que debo pensar es en irlos a ver”.