Julho 10, 2008...9:44 pm

Alguns comentários sobre o exercício de tradução inglesa

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Assim como não há sombra se não houver um objeto, não existe linguagem se não houver uma idéia. Quanto mais distante estiver a sombra de seu objeto, tanto menor sua nitidez. Da mesma forma, quanto mais distante estiver a linguagem de sua idéia, tanto menor sua clareza.

Ricardo Schütz*

A citação acima deveria estar enquadrada na parede do local de trabalho de qualquer tradutor profissional ou aventureiro. Pode-se inferir dela que a linguagem, em sua essência, serve-nos como ferramenta para expressar determinada realidade material, de objetos palpáveis, visíveis e nomináveis. É a partir dessa base que outra realidade – de pensamentos abstratos, invisíveis e conceituais – se desenvolve.

Vamos partir do pressuposto de que as pessoas se relacionam com essas realidades, ou a idéia que temos delas, de forma distinta e com diferentes vieses. Poderíamos citar inúmeras variáveis que permitem essas distorções – educação escolar, ambiente familiar, experiência de vida, poder aquisitivo e, por que não, a própria estrutura da língua materna. Poderíamos, mas…

Mas, seguindo o conselho do velho imperador e filósofo Marco Antônio, atenhamo-nos à essência das coisas: você deve redigir sobre aquilo que lhe é mais caro, que está, de preferência, mais próximo de sua realidade. Isto não é determinismo, porém todo candidato a tradutor precisa conhecer suas próprias limitações de percepção. Quanto mais distante estiver o texto do seu universo, mais difícil será falar sobre ele. E só falamos bem daquilo que conhecemos.

Seguir à risca a indicação do autor das Meditações é, antes de tudo, evitar teorizações e volteios desnecessários como os que fiz nas linhas acima. Vá ao encontro do cerne do texto, morda a jugular da questão e, em bom inglês, do not waffle[1]. Fica aí uma primeira recomendação. Vamos às outras:

  1. Instrumental de trabalho

A intenção aqui não é impor uma lista de materiais sem os quais você não seja capaz de traduzir, mas apenas indicações que, talvez, facilitem seu trabalho:

a. Lápis, papel e marca-texto. Em se falando de tradução, deixe o papo eco-chato e biodesagradável de lado e imprima o texto sobre o qual você se debruçará por algumas horas. Não se prive de rabiscar, puxar setas e grifar o que for necessário quando imergir no conteúdo. Essas anotações registram a evolução do trabalho e as alterações feitas ao longo do tempo. Além disso, elas serão valiosas na hora da composição final.

b. Local de trabalho. Dispenso falar que seu “espaço vital” precisa de mesa, cadeira, estante e silêncio. Mas, além disso, adote alguns rituais ao pôr a mão na massa: para aquecer, ouça rádio, música ou veja algum programa de TV. Em inglês, é claro. Nada muito demorado nem importante; aproveite esse momento para se concentrar e estimular o cérebro a pensar naquele idioma.

  1. Dicionários, pais de curiosos como você.

Sim, disse dicionários no plural. Tenha em sua estante, de preferência, quatro deles: dois monolíngües (os meus são Webster e Cambridge), um bilíngüe (há uma edição de Oxford especialmente para estudantes brasileiros) e um específico, que pode ser de phrasal verbs, collocations ou de idioms.

Tome cuidado com os bilíngües, em especial com o Michaelis. Geralmente, apresenta uma seleção pobre e confundível de sinônimos e significados. Agenor Soares dos Santos, diplomata aposentado e autor do Guia prático de tradução inglesa, faz o seguinte comentário sobre essa modalidade de dicionário:

A dificuldade inerente a todos [os dicionários bilíngües] são os termos chamados culture specific (…). São lexemas cujo significado nem sempre se esclarece bem com uma ou várias formas na língua de chegada: o autor pode ter necessidade de oferecer uma definição ou explicação, aproximação ou adaptação, e quase sempre exemplificando.[2]

Há também as versões online e em software de dicionários. Da última categoria, destaco o Merriam Webster. Talvez você precise de algum outro site, especializado em termos mercadológicos, por exemplo. Listo aqui alguns websites importantes:

a. American National Corpus: http://AmericanNationalCorpus.org

b. Collins Sampler of the Bank of English: www.collins.co.uk/Corpus/CorpusSearch.aspx

c. Corpus do português, de Mark Davies, da Brigham Young University, e Michael J. Ferreira, de Georgetown University: www.corpusdoportugues.org

d. OneLook, site que oferece busca em vários dicionários de língua inglesa: www.onelook.com

e. Web concordancer: www.edict.com.hk/concordance/

f. WordWeb, dicionário eletrônico para consulta pela internet ou em software: www.wordwebonline.com

g. Fallacy Files: www.fallacyfiles.org

h. Dictionary.com: www.dictionary.com

  1. Traduza idéias, não palavras.

Ricardo Schütz estabelece uma definição curiosa entre redação e tradução:

Redigir (…) é a arte de criar uma representação de fatos do universo e traduzir é a arte de recriar esta representação, de reestruturar a idéia nas formas que a língua para que se traduz oferece e sob a ótica da cultura ligada a essa língua[3].

Esse excerto auto-referencial dispensa maiores comentários, mas propõe um novo foco de luz sobre o ofício: a linha que separa o redator do tradutor é tênue e intercambiável. Traduzir é, também, tecer um novo tecido semântico. Transpor uma representação de fatos de um universo para outro significa traduzir pensamentos, antes de tudo. A correlação se dá no plano das idéias, não no das formas. Por isso, se um dia você quis traduzir um texto palavra por palavra, guarde esse segredo e não o conte a ninguém.

  1. Etapas do processo de tradução

Costumo dividir a tradução em quatro etapas. Não preciso frisar que você não precisa seguir à risca essas indicações, mas talvez elas lhe ajudem a melhorar a organização do trabalho.

ETAPA UM:

Primeiros contatos. Leia o texto completo, evitando pausas mais alongadas. Pare somente se a incompreensão de uma frase ou parágrafo impedi-lo de prosseguir. A intenção aqui é apreender a idéia geral do texto. Afinal, trata-se do quê? Qual (quais) área(s) abrange? A linguagem e o tema lhe são caros? Aproveite esse primeiro contato para pesquisar características básicas do assunto. Se o livro fala de um gráfico em cauda longa, por exemplo, procure o formato e o significado do termo. Ao final da leitura, escreva em algum lugar suas impressões e qual é, em sua opinião, a idéia central do texto. Guarde essa nota.

ETAPA DOIS:

Imersão. A idéia geral será desmembrada em unidades menores, como blocos de texto e parágrafos. Essa é a leitura mais demorada e trabalhosa. Duvide de seu vocabulário, vasculhe dicionários atrás de sinônimos, pesquise sobre outros assuntos que aparecerem. Quando for ao dicionário, abra primeiro o monolíngüe, de preferência. Não tente traduzir o vocábulo logo de primeira: deixe-se levar pelo desafio, leia a definição e tente entender o conceito. Só depois, se sentir dificuldade, busque em um bilíngüe.

ETAPA TRÊS:

Verificação da idéia geral. A essa altura, seus papéis devem estar bem rabiscados e você, um tanto esbaforido. Se for necessário, faça uma pausa, procure decantar tudo o que aprendeu. Quando voltar ao texto, leia-o de uma só vez, parando apenas para verificar as anotações que fez ao longo da tradução. Procure checar se as idéias menores, juntas, desembocam naquela primeira idéia que você depreendeu. Em geral, há algumas distorções. Você deve voltar e conferir em quais pontos o entendimento não foi tão claro, e repará-los.

ETAPA QUATRO:

Edição. Depois da segunda etapa, essa é a que vai lhe tomar mais tempo. Afinal, você deverá reestruturar as idéias e a representação de fatos do universo que o texto apresenta, compondo uma obra em cima de outra. Tome cuidado com a composição, pois, como alerta Ricardo Schütz,

O português da cultura brasileira (…) é uma língua que muitas vezes soa bem quando apresenta uma idéia vaga, além de permitir uma maior flexibilidade na formulação de frases e ter uma tendência a usar frases mais longas do que o inglês.

Por isso, verifique se o texto traduzido está inteligível, em primeiro lugar. Em seguida, se ele dialoga com a idéia específica do parágrafo; por fim, se está de acordo com a idéia central. Nem sempre é fácil averiguar essas correlações. Deixe o texto final descansando, dê um tempo para o distanciamento crítico, peça para alguém de confiança ler a composição. Aqui entra seu estilo de trabalho e edição.

Edite o texto quantas vezes for preciso, mas sempre tenha em mente um prazo. Não há trabalho com tempo indefinido; mesmo se não lhe for dado uma meta, crie uma. Com o tempo, a prática vai incrementando sua produtividade. Na checagem final, procure por trechos com falta de clareza. Em geral, elas se enquadram nos seguintes quadros:

  1. abrangência excessiva e uso de palavras desnecessárias.
  2. frase excessivamente longa com assuntos desconexos.
  3. falta de pontuação.
  4. inversão da ordem direta da frase.

Para iniciantes, uma tradução nunca fica inteiramente pronta; por isso, use essas oportunidades para se aperfeiçoar – peça feedback aos amigos, compare originais de obras clássicas com suas respectivas traduções, e veja quais recursos foram usados para escapar de trechos mais árduos. Pratique sempre que puder; você só tem a ganhar.


* In: SCHÜTZ, Ricardo. “Portuguese and English contrast contrasts in writing – how to translate /Contrastes de redação entre português e ingles – como traduzir”. Extraído de www.sk.com.br, sem pedido de autorização de Schütz & Konama. Acessado em 28 032008.

[1] Tradução possível: “Não encha lingüiça”.

[2] SANTOS, Agenor Soares dos. Guia prático de tradução inglesa: como evitar as armadilhas das falsas semelhanças. Edição revista, ampliada e atualizada. Rio de Janeiro: Elsevier, 2007. p. 13.

[3] SCHÜTZ, Ricardo. Op. cit.

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