Janeiro 4, 2009

Sobre ondas, marolas e tsunamis

São raras as ondas de crescimento sincrônico em que a maré do progresso levanta todos os barcos – grandes e pequenos
Roberto Campos, “Preparando-nos para o terceiro milênio”

As três ondas

Em artigo publicado no livro organizado por Ives Gandra Martins (1), o economista, diplomata e político Roberto Campos (1917-2001) identifica três ondas de crescimento sincrônico.

A primeira delas foi iniciada com a implantação do Mercado Comum Europeu, em 1957, que baseou o “milagre europeu” e, mais tarde, o “milagre japonês”. O Brasil participou dessa onda. Estávamos em plena era desenvolvimentista de Kubitschek (1956-60) e tivemos um salto em tecnologia e grau de industrialização. A contrapartida foi, segundo Campos, uma base de poupança inadequada, que logo levaria o país a entrar numa crise inflacionária e de balanço de pagamentos.

O Brasil também participou da segunda onda de crescimento sincrônico, que se estendeu da metade dos anos 1960 até a primeira crise do petróleo. De 1968 a 1973, foi a vez do nosso “milagre”, responsável por uma taxa de crescimento médio de 10% ao ano. O período subseqüente foi marcado pelos esforços de ajuste às duas crises e por uma das conseqüências do principal fator que capitaneou nosso crescimento: os vultosos empréstimos estrangeiros viraram vultosa dívida externa. Fomos assolados por aquilo que Campos chamou de “os quatro cavaleiros do apocalipse”: paralisia do ingresso de capitais, juros altos da dívida externa, queda de preços das commodities e contágio da recessão mundial.

Na terceira onda, que se estende de 1984 a 1990, há a recuperação dos EUA e da Europa e, paralelamente, um novo “milagre”: o do Leste Asiático, que se estende até hoje. O Brasil viveu a transição do regime político no período, e ficou de fora desta onda. Segundo Campos, “[...] Um paradoxo da redemocratização brasileira a partir de 1985 foi que descompressão política não foi acompanhada de liberação econômica. Resultou, ao contrário, em agravamento do dirigismo e intervencionismo econômico, que atingiu seu ápice na Constituição de 1988, que nos colocou na contramão da história” (2).

A quarta onda, identificada por Campos no decurso do processo, já que o artigo foi escrito em 1997, seria (é) marcada pelas revoluções nas telecomunicações, na biotecnologia e pela crescente globalização dos mercados. O novo cenário impõe não só ao Brasil, mas a todos os países em desenvolvimento, uma definição, preparação e algumas contrapartidas antes de atuar como player no mercado global, como sugere Gilson Schwartz ao comparar os projetos nacionais de índia, China e Brasil: “Definida como inevitável e irreversível, a globalização reservaria ao Estado Nacional um papel, no mínimo, coadjuvante. Não é o que ensinam as duas grandes potências médias vitoriosas na globalização dos últimos 25 anos, China e índia. Vencem porque têm projetos estratégicos, estatais ou nacionais, de desenvolvimento”. (3)

A marola que precede a onda

Campos identifica também que as ondas de crescimento, no caso brasileiro, foram precedidas de reformas. Na primeira onda, foram os melhoramentos institucionais no segundo governo Vargas (1951-1954) – como a criação e os trabalhos de prospectiva econômica do BNDE (hoje BNDES) -, que deram a base de sustentação para o Plano de Metas de Kubitschek. Contribuiu também para esse processo a construção da CSN, fundamental para a indústria de base, e a implantação da Comissão Mista Brasil – Estados Unidos (CMBEU).

O nosso “milagre”, ainda segundo Campos, foi possibilitado pelo intenso reformismo do governo Castelo Branco (1964-7): criação do BNH, do Banco Central, implantação do Código Tributário, do FGTS, da lei de mercado de capitais etc., que, somadas, permitiram um institution building e uma preparação para a modernização capitalista no período subseqüente.

No entanto, ao contrário dos períodos anteriores, houve uma “contra-reforma” quando da terceira onda, na década de 1980. Ressalta Campos que “(…) a constituição de 1988 (foi) híbrida no político, utópica no social e obsoleta no econômico” (4). Somados aos fatores econômicos externos acima descritos, à perda da capacidade estatal de atuar como indutor do desenvolvimento industrial e também aos malfadados planos de estabilização que precederam o Plano Real, não é exagero chamar a década de “perdida”.

Desde FHC, o país vem sendo regido pelo tripé formado por superávits fiscais, política cambial liberal e uma política monetária contracionista. A busca pela retomada da credibilidade, da redução da relação dívida/PIB e da austeridade fiscal, acrescida também pela aparente perenidade de nossas instituições, deram ao país um patamar relativamente sólido para alçar vôos maiores. A maior oportunidade surgida desde então apareceu no dia 7 de novembro de 2007, quando a Petrobrás anunciou as primeiras descobertas da camada pré-sal.

À espera do tsunami

Em “O petróleo do pré-sal: os desafios e as possibilidades de uma nova política industrial no Brasil” (5), os autores Fernando Carvalhaes Barbi e Ana Lúcia Pinto da Silva propõem um debate mais aprofundado sobre os usos e possíveis efeitos que a exploração da camada pré-sal pode trazer para nós.

A oportunidade de avançar em termos de políticas de desenvolvimento econômico é seguida da chance, talvez única, de reduzir desigualdades sociais e regionais. Sob este prisma, o presidente Lula não exagera ao dizer, em pronunciamento do dia 7 de setembro de 2008, que “o pré-sal é um passaporte para o futuro”. Resta debater mais aprofundadamente, contudo, a forma de usar o passaporte.

Para os autores, o debate sobre o pré-sal passa pelo delineamento de uma política industrial direcionada não apenas ao setor, mas em atividades e tecnologia. Esta política industrial, por sua vez, é composta fundamentalmente por: a) identificação das atividades-chave a explorar; b) planejamento das cadeias de suprimentos e de distribuição dos produtos finais e c) criação dos mecanismos de financiamento dos empreendimentos.

Encontrar atividades-chave e explorá-las, planejar cadeias de suprimentos e de distribuição dos produtos finais e criar mecanismos de financiamento dos empreendimentos, elementos basilares de uma política industrial, é um processo que envolve benchmarking, monitoração e experimentação. Resta-nos acompanhar até que ponto haverá vontade política para conduzir tal processo. Dado o primeiro passo, defende os autores, pode-se “educar, capacitar para a pesquisa e distribuir o conhecimento gerado a grupos capazes de aproveitá-lo em processos industriais” (6).

Outro aspecto que demanda observação é a alteração da Lei 9478/1997, conhecida como “Lei do Petróleo”. Alterar o atual sistema de concessão para o de partilha, além de possibilitar o compartilhamento do risco entre governo e investidores, atende de forma mais eficaz a necessidade de grandes investimentos para se extrair petróleo de camadas profundas. A ressalva a se tomar, segundo os autores, “(…) é que os parceiros não destinem suas demandas por materiais e equipamentos, como plataformas e navios, a seus países de origem ou a fornecedores internacionais mais competitivos. é preciso estabelecer mecanismos para estimular a aquisição dos insumos necessários no mercado doméstico” (7). Além disso, defendem os autores, um planejamento de longo prazo permitiria ao mercado doméstico se preparar para atender à demanda da exploração.

Planejar uma política industrial e aplicar as reformas necessárias à sua implantação é, assim, uma forma de preparar o terreno para o tsunami que pode vir, que ao mesmo tempo pode nos levar às alturas como pode, também, nos devastar.

Considerações finais

O petróleo, ao contrário do café, é um produto de alta divisibilidade técnica. Isso significa, em outras palavras, que sua produção só é vantajosa em grande escala (o café, por sua vez, pode ser plantado em latifúndios ou minifúndios) e que poucos grupos detém o acesso à produção, exploração e distribuição. Mesmo assim, a cadeia produtiva que envolve o petróleo pode trazer – e certamente trará – desafios e mudanças estruturais em nossa economia e sociedade.

O maior deles é o capital humano, fator primordial do crescimento. Iniciativas como o FUNDEF e a crescente participação do sistema SENAI na expansão do ensino técnico no país podem corresponder, futuramente, à demanda que o setor petrolífero trará no mercado. A interrogação aqui é o futuro da cultura bacharelesca, alimentada mais e mais pela massificação do ensino superior. A modesta sugestão deste autor é: mais técnicos, menos bacharéis. A competência de cada um deles pode equilibrar a balança.

A capacitação técnica e os investimentos em pesquisa podem trazer aquilo que se chama de “cultura de indústria” ao país. Quanto maior for a cadeia de produção e o capital humano nacional, talvez menor seja a chance de um ou poucos grupos “capturarem” os maiores pedaços do bolo, fenômeno conhecido por rent-seeking. Uma cadeia produtiva ampla também pode acelerar a integração regional e a base para ela: a infra-estrutura, cuja falta aumenta (e muito) o risco Brasil.

Há que se destacar também que, em termos diplomáticos e militares, o Brasil tem muito a crescer no cenário internacional. O binômio petróleo-etanol pode aumentar o prestígio econômico em foros multilaterais e consolidar, enfim, o papel de global player. A tradição do diálogo diplomático e o peso econômico do Brasil, no entanto, deve ser contrabalançado com a reestruturação de nossas Forças Armadas, que foram sucessivamente desmanteladas e desprestigiadas desde a redemocratização.

Um corpo de engenheiros e de defesa, seja da Amazônia verde, seja da Amazônia azul, é de fundamental importância para o país assegurar sua riqueza e seu status. Não à toa, o presidente Lula declarou recentemente, durante a visita oficial do presidente Sarkozy ao Brasil, que “a capacidade militar é a condição inexorável para que um país se transforme em potência e seja respeitado no mundo inteiro”. Esforços conjuntos dos ministros Mangabeira Unger (Assuntos Estratégicos) e Nelson Jobim (Defesa) prometem não um reequipamento com fins expansionistas, mas baseado no tripé monitoramento/controle, mobilidade e presença (8).

Como se vê, a interface que o petróleo do pré-sal promove com outras áreas estratégicas é grande e demanda debate e planejamento prévio. Não é hora de acelerar o passo; contudo, não podemos dar o salto antes que o litoral esteja devidamente preparado para enfrentar o tsunami.

Referências:

(1) MARTINS, Ives Gandra (coord.). Desafios do século XXI. São Paulo: Pioneira, Academia Internacional de Direito e Economia, 1997.
(2) CAMPOS, Roberto. “Preparando-nos para o terceiro milênio”. In: MARTINS, Ives Gandra (coord.). Desafios do século XXI. São Paulo: Pioneira, Academia Internacional de Direito e Economia, 1997. p. 24
(3) SCHWARZ, Gilson. “Projeto nacional separa índia e China do Brasil”. Folha de S.Paulo, Suplemento “A corrida dos emergentes”, 30/07/2006.
(4) CAMPOS, Roberto. Op. cit., p.25
(5) BARBI, F.C. e SILVA, A. L. P. “O petróleo do pré-sal: os desafios e as possibilidades de uma nova política industrial no Brasil”. Revista Pesquisa & Debate, SP, volume 19, número 2 (34) PP. 255-271, 2008.
(6) Idem, ibidem, p. 269
(7) Idem, ibidem, p. 263
(8) “Lula quer o Brasil como potência militar”, OESP, 24/12/2008.

Setembro 27, 2008

Observando índios

Nota: essa matéria data de maio de 2006. Àquela época, o texto foi publicado no portal cotiatododia, mas, não se sabe por qual razão, o link para a matéria desapareceu. O principal motivo de sua republicação, passados dois anos, é prestar homenagem ao meu grande amigo Ryszard Polski (tradução ao pé-da-letra: Ricardo, o polonês), artista plástico de qualidades supreendentes e que, ao dedicar parte de sua vida aos índios do Alto Xingu, encontrou um par de orelhas sempre fiel para escutar suas histórias: eu mesmo.

Observando índios

A mostra “Olhar Índio”, que reúne as principais obras do artista plástico Ryszard Polski, ficará no Teatro Municipal de Osasco até a próxima sexta-feira, dia 26.

Lançada oficialmente em 20 de abril, a exposição “Olha Índio”, do artista plástico Ryszard Polski, 54, conta com 23 telas que retratam o cotidiano dos índios da aldeia Yawalapiti (lê-se Iaua-la-pití), habitantes do Parque Indígena do Xingu, no Estado de Mato Grosso.

Até sexta-feira, data de encerramento, a mostra completará 38 dias de exposição. Nesse período, o saguão do Teatro Municipal de Osasco ofereceu um atrativo a mais àqueles que vieram assistir à programação em cartaz.

A mostra

Os quadros de Ryszard Polski registram cenas cotidianas da vida na aldeia yawalapiti. Os temas variam da luta do huka huka - duelo realizado após a festa do Kuarup, maior celebração das tribos xinguanas -, passando por afazeres domésticos, como mostrado na tela “Pão da vida”, na qual uma índia, linda como Iracema, amassa a mistura de farinha de mandioca com água para fazer moquecas.

A sabedoria dos integrantes mais velhos da tribo está presente nas telas “rio da sabedoria” e “olhar índio 10″, óleos sobre tela que mostram, respectivamente, um senil se banhando calmamente nas águas do Kuluene e outro, igualmente senil, olhando para baixo, humildemente.

A leitura dos quadros sugere uma relação direta com um escrito de Leonardo da Vinci: “Pouco conhecimento faz que as criaturas se sintam orgulhosas. Muito conhecimento, que se sintam humildes. É assim que as espigas sem grãos erguem desdenhosamente a cabeça para o céu, enquanto que as cheias as baixam para a terra, sua mãe”.

A obra de Ryszard Polski transparece, assim, o esforço de um artista que tenta, em primeiro lugar, compreender o mundo, não transformá-lo. O registro da cultura indígena ali presente é tão sincero e fiel às origens quanto os relatos dos primeiros antropólogos que, a partir da década de 30 do século passado, debruçaram-se sobre o tema, como o belga Claude Lévi-Strauss (1908 – ).

Só que Polski não está preocupado com as possíveis interpretações da cultura indígena, que geralmente partem de um ponto de vista civilizado e desaguam no debate ideológico. O artista plástico reflete em suas telas o esmero que teve em reproduzir cada detalhe do corpo (índio), da estrutura (aldeia) e do ambiente (floresta) que compõe o Xingu. Num mundo cada vez mais materialista, rotineiro e entediante, mergulhar na cultura indígena, que ainda tem tanto a nos ensinar, é uma boa opção para fugir da nossa selva, que é de pedra.

A obra e o artista

Não é a primeira vez que Ryszard Polski expõe seu trabalho no Teatro de Osasco. Em 1999 ele apresentou ao público a exposição “Alma Yanomami”, inspirada em fotos que o tio dele, Tadeu Rumpel, havia registrado em 1956. Ryszard aproveitou o ensejo e viajou para a região do Alto Rio Negro, Estado do Amazonas, em 1998, entrando em contato com a cultura silvícola local.

Em 1999, Ryszard viajou para o Parque Indígena do Xingu, um território do tamanho da Bélgica encravado no Estado de Mato Grosso, com 16 nações indígenas e população total de quase quatro mil habitantes, dados do IBGE em 2002. Incentivado pelo amigo Orlando Villas Bôas (1914-2002), Ryszard se hospedou por 20 dias na aldeia Yawalapiti e conheceu o cacique Aritana, que cresceu ao lado dos irmãos Villas Bôas e hoje é tido como o porta-voz do povo xinguano.

A viagem ao Xingu resultou na mostra “Alma de gigante – tributo a Orlando Villas Bôas”, que ficou em cartaz ao longo de abril de 2001. Dois anos depois, Ryszard voltaria ao Xingu para presenciar o Kuarup (festa dos mortos) em homenagem a Orlando, morto em 2002.

O trabalho de Ryszard Polski obteve reconhecimento dentro e fora do país. Seus quadros já circularam pela Abach (Academia Brasileira de Arte, Cultura e História), pela Assembléia Legislativa do Estado e por exposições diversas na Capital, Grande São Paulo e Interior. Em 2004, Polski foi agraciado com a medalha de ouro na Exposição de Arte Brasileira na cidade de Friedrischhafen, Alemanha.

Agosto 8, 2008

Um gênero à parte

A sanção da Lei 11.767/2008 confirmou, ao menos parcialmente, uma suspeita que há muito eu cogitava: a de que classe de advogados no Brasil se considera um gênero à parte do restante de nós, reles mortais. Também cheguei à conclusão de que não dá para confiar no que Monica Bergamo diz, já que jurou de pé junto que a Lei seria vetada in limine pelo presidente Lula. Como Nosso Guia está em Pequim, coube ao vice José de Alencar impor as restrições ao veto e sancionar a redação final no DOU.

De acordo com o inciso II do Art. 7, a classe terá assegurada “(…) a inviolabilidade de seu escritório ou local de trabalho, bem como de seus instrumentos de trabalho, de sua correspondência escrita, eletrônica, telefônica e telemática, desde que relativas ao exercício da advocacia”.

Analisada sob o contexto em que foi aprovada, pode-se inferir duas situações. Na primeira delas, ao argumentar a defesa da privacidade e, em escala maior, das garantias fundamentais do cidadão, o governo pode dar guarita às suas próprias ações. É promover a mélange, mais uma vez, entre as esferas pública e privada, tão comum na taba brasilis. Afinal, a Satiagraha pode ser considerada abusiva exatamente por chegar próximo demais a um sem-número de grupos de interesse distintos.

Em uma segunda situação, a classe advocatícia poderá arrogar para si o direito de ser mais brasileira que os brasileiros, proteção essa obtida apenas para cumprir o que sempre foi seu dever: defender interesses perante o Judiciário. Como toda agremiação, apresenta seus diferentes matizes, mas, protegida como se uma só fosse, permitirá acobertar inclusive advogados que trabalham exclusivamente para facções criminosas.

Sim, eles são uma classe à parte. Pretendo abordar, em post futuro, alguns comentários sobre os excelentes A Construção da Ordem e Teatro de Sombras, de José Murilo de Carvalho, estudos que delineiam as origens da nossa burocracia estatal e seu vínculo intestino com a classe de Direito.

Agosto 6, 2008

A anti-rosa atômica

Hoje é seis de agosto, 63o aniversário da destruição de Hiroshima pelo little boy. Há quem veja na data a explosão de um mal necessário, fundamental para abreviar o fim da Segunda Guerra Mundial. Outros vêem na infâmia um recado direto para a superpotência soviética, que exploridiria sua primeira bomba experimental quatro anos depois. Para Hannah Arendt, Hiroshima inaugurou a era da banalização do mal.

Mais uma vez, sobreviventes e curiosos se reuniram sob a Cúpula Genbaku, símbolo do Memorial da Paz, para lembrar os cerca de 220 mil mortos naquele dia. Além do admirável Hiroshima, de John Hersey, um mangá de 1988 mostra com muita maestria a sociedade japonesa naquela época.

Trata-se de Hotaru no haka (“Cemitério dos vagalumes”), que conta a história dos irmãos Seita e Setsuko. Afastados do pai, oficial da Marinha Imperial, e órfãos de mãe, morta durante um bombardeio americano, tentam sobreviver em uma sociedade empobrecida e semidestruída pela guerra. Apesar do formato em mangá, a duração e a densidade da narrativa impressiona. Para quem tiver interesse, aí vai uma pequena amostra.

Agosto 5, 2008

Haja tempo

O jornal britânico The Times disponibilizou seu arquivo digitalizado de 1785 (quatro anos antes da revolução francesa) até 1985 (quando esse que vos fala engatinhava com apenas um ano).

O link é esse e a dica é do jornalista, geógrafo e polivalente Marcelo Iha.

Agosto 1, 2008

Tradução da semana: “O dossiê brasileiro”

Fonte: Revista Câmbio, 31 de julho de 2008.

[TRADUÇÃO LIVRE]

O dossiê brasileiro

O computador de Raúl Reyes revela que os vínculos das Farc com altos funcionários do governo do Brasil, entre eles cinco ministros, chegaram a níveis escandalosos.

Ao entardecer do sábado, 19 de julho, na fazenda Hatogrande (residência presidencial ao norte de Bogotá), o presidente Álvaro Uribe, descontraído e sorrindo atipicamente, não hesitou em oferecer um cálice de aguardente antioquenho ao seu homólogo brasileiro Luís Inácio Lula da Silva, para mitigar o frio de tremer os ossos.

O cálice fechou a primeira parte da intensa jornada que havia começado na sexta-feira [18] , e que terminaria no domingo em Letícia [localizada no “trapézio” amazônico, na divisa com Brasil e Peru] com a celebração do Dia da Independência. Uma celebração que, como nunca antes naquele país, congregou artistas de peso como Shakira e que contou também com a presença de Alan Garcia, presidente peruano.

O encontro Lula-Uribe, que girou em torno de acordos bilaterais, foi permeado de elogios públicos. O presidente Uribe agradeceu a Lula e ao seu governo pelos seis anos de relações dinâmicas e de confiança recíproca. No entanto, o fez em uma reunião privada, ante uma platéia diminuta. Uribe resumiu para Lula o conteúdo de uma série de arquivos que as autoridades colombianas encontraram nos computadores de Raúl Reyes, documentos esses que vinculariam cidadãos e funcionários brasileiros às Farc.

Ao contrário da ênfase dada às informações relacionadas a servidores públicos e a cidadãos equatorianos, o Governo colombiano adotou uma postura reservada e manejou diplomaticamente os dados para não deteriorar as relações comerciais e de cooperação com o governo Lula.

Bogotá tem usado de forma seletiva os arquivos do computador de Raúl Reyes. Se os usou para censurar Equador e Venezuela, com o Brasil tem lidado discretamente para não comprometer Lula da Silva, que se mostrou mais hábil e menos ardiloso com a Colômbia do que seus colegas.

Mesmo assim, alguns jornais brasileiros obtiveram informações parciais sobre uma parcela dos arquivos, e, por isso, em 27 de julho, consultaram Juan Manuel Santos, ministro da Defesa colombiano, que concedeu uma entrevista a O Estado de S. Paulo, na qual confirmou que a Casa de Nariño havia informado Lula sobre o tema. “Há uma série de informações de conexões que entregamos ao governo brasileiro para que aja como achar melhor”, disse Santos, abstendo-se de comentar se havia ou não políticos e funcionários oficiais com nexos com o grupo guerrilheiro hoje encabeçado por Alfonso Cano.

O assessor de política internacional de Brasília, Marco Aurélio Garcia, rebateu imediatamente as declarações do ministro, classificando os dados fornecidos por Bogotá como “irrelevantes”.

“O padre Camilo”

Não se sabe exatamente o conteúdo das informações que o presidente Uribe encaminhou a Lula, mas o que se pode chamar de “dossiê brasileiro” tem potencial para trazer implicações tão sérias quanto os dados relacionados à Venezuela e ao Equador.

CAMBIO teve acesso a 85 e-mails que, entre fevereiro de 1999 e fevereiro de 2008, circularam entre “Tirofijo[Pedro Antonio Marín, chefe supremo das Farc e morto em 26 de março], “Raúl Reyes [morto em primeiro de março] , o “Mono Jojoy [morto em 11 de maio], “Oliverio Medina [‘delegado’ das Farc no Brasil’] e dois homens identificados como “Hermes e “José Luís”.

A julgar pelo conteúdo das mensagens, a presença da Farc no Brasil chegou até o alto escalão do governo Lula, do PT, de lideranças políticas e do Judiciário. Essas mensagens fazem menção a cinco ministros, um procurador geral, um assessor especial do Presidente, um vice-ministro, cinco deputados, um vereador e um juiz superior.

A personagem central das mensagens é “Oliverio Medina”, também conhecido como “Padre Camilo”, um sacerdote que ingressou nas Farc em 1983 e que, em ascensão meteórica, chegou a ser secretário de “Tirofijo”. Chegou ao Brasil como delegado especial das Farc em 1997 e esteve na Colômbia durante o “Processo do Caguán[iniciativa do ex-presidente Andrés Pastrana (1998-2002) que, a partir da cidade de San Vicente del Caguán, estabeleceu uma área desmilitarizada de 42 mil km², sob a jurisdição das Farc], no qual atuou como assessor de imprensa do grupo guerrilheiro.

Depois de interromper as conversações em fevereiro de 2002, regressou ao Brasil, de onde continuou sua missão, e sua influência chegou até a cúpula da administração de Lula, que assumiu o cargo em janeiro de 2003. Graças à pressão das autoridades colombianas, Medina foi capturado em agosto de 2005. A Colômbia pediu sua extradição, mas o STF não só negou o pedido em 22 de março de 2007, como também deu a ele a condição de refugiado político.

Até à cúpula

A prisão não foi obstáculo para que o “Padre Camilo” suspendesse sua atividade proselitista e propagandística. Prova disso são os inúmeros e-mails que enviou a Raúl Reyes e que mostram como conseguiu chegar à cúpula do governo brasileiro.

Quatro dos e-mails a que CAMBIO teve acesso se referem ao presidente Lula. Em um deles, datado de 17 de julho de 2004, Raúl Reyes diz a “Tirofijo” que o governo de Lula ofereceria ajuda quanto ao acordo humanitário: “Os caras me enviaram uma carta pedindo entrevista com eles no Brasil” – escreve Reyes. Segundo a mensagem, alguém falou com Lula e ele assumiu o compromisso de ajudar no acordo humanitário, intercedendo ante Uribe para sediar a reunião no Brasil.

No segundo, datado de 25 de setembro de 2006, Oliverio Medina conta a Reyes: “Não lhe havia dito que há alguns dias Lula chamou Paulo Vanucchi (ministro da Secretaria Nacional de Direitos Humanos), dizendo-lhe que telefonara ao advogado Ulisses Riedel e o felicitara pelo êxito jurídico em sua brilhante defesa a favor do meu asilo”.

No terceiro, de 23 de dezembro de 2006, Medina informa a Reyes que enviou “cartões de natal a Lula e a dois assessores que nos têm ajudado”. Os funcionários são Silvino Heck, assessor especial do presidente, e Gilberto Carvalho, chefe de gabinete, que aparecem em outra mensagem, também data em 23 de dezembro e dirigida a Reyes: “É provável que receba a visita de um assessor especial de Lula chamado Silvino Heck, que, junto com Gilberto Carvalho, tem nos ajudado bastante”.

Entre as 85 mensagens a que CAMBIO teve acesso, há uma sem data, também emitida por Medina a Reyes, que diz: “Estive conversando com a [então] deputada federal Maria José Maninha. Acordamos que ela vai me abrir caminho para o presidente via Marco Aurélio Garcia”. Garcia é o secretário de Assuntos Internacionais.

Não menos comprometedores são aqueles em que alguns ministros são mencionados. Em um deles, dirigido a Reyes em 4 de junho de 2005 por um certo “José Luís”, figura o nome do então ministro da Casa Civil, José Dirceu. “Chegou um jovem de uns 30 anos e se apresentou como Breno Altman (dirigente do PT), disse-me que vinha da parte do ministro da Casa Civil José Dirceu, e que, por motivos de segurança, haviam acordado que as relações não passariam pela Secretaria de Relações Internacionais, mas que se fizesse diretamente por meio do ministro com a representação de Breno”.

Ao final da mensagem, “José Luís” disse que o governo brasileiro e o PT darão proteção a Medina à medida que o trâmite de extradição avançar: “Perguntei se poderíamos estar tranqüilos, que não iriam seqüestrá-lo ou deportá-lo para a Colômbia e ele respondeu: ‘Podem estar tranqüilos’”.

Em um correio de 24 de junho de 2004, Reyes comenta a Medina sobre a possível saída de Dirceu do Gabinete e disse: “Se confirmada, essa medida oportunista dos detratores de Lila pode afetar a incipiente abertura das relações para conosco”.

As Farc também tentaram chegar ao despacho do ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim. Em um correio de 22 de fevereiro de 2004, “José Luís” escreve a Reyes: “Por intermédio do lendário líder petista Plínio Arruda Sampaio, chegamos a Celso Amorim, atual ministro das Relações Exteriores. Plínio pediu para falarmos com Albertão (vereador de Guarulhos), que disse que o Ministro está disposto a nos receber e que, assim que tiver um espaço em sua agenda, nos receberá em Brasília”.

O procurador e o juiz

O embaixador das Farc desempenhou tão bem o seu ofício que também obteve êxito em chegar ao procurador Luís Francisco de Souza, que é mencionado em um extenso e-mail de 22 de agosto de 2004, enviado por Medina e “José Luís” a Reyes e Rodrigo Granda: “Ele [Souza] nos deu o seguinte conselho: andar com uma máquina fotográfica e, se possível, com um gravador para caso de algum agente de informação nos parar novamente. Devemos fotografá-lo e gravá-lo, tomando cuidado para não permitir que tomem o equipamento. E que, com relação ao sucedido, encaminhemos uma denúncia dirigida a ele como Procurador, para fazê-la chegar ao chefe da PF e da ABIn”.

Algumas mensagens foram escritas durante o processo de Caguán e abarcam um prestigioso juiz e um ex-oficial de alto escalão das Forças Armadas brasileiras. Por exemplo: em mensagem de 19 de abril de 2001, “Maurício Malverde” informa a Reyes: “O juiz Rui Portanova, nosso amigo, nos disse que deseja ir aos acampamentos para receber instruções e conhecer a vida das Farc. Custeie sua viagem”. Portanova era então juiz do Superior Tribunal Estadual do Rio Grande do Sul.

Três dias antes, em 16 de abril, Medina relata a Reyes um encontro de Raimundo, Pedro Enrique e Celso Brand – ao que parece, elos das Farc no Brasil – com o Brigadeiro-do-ar Ivan Moacyr da Frota, ex-comandante da FAB. “O homem se interessou e disse que gostaria de um encontro pessoal com a gente. Disse que estão começando a madurar os planos de tomada da base de Alcântara pelas forças nacionalistas para impedir que os EUA fiquem com 600 quilômetros que estão sob seu domínio”.

A pequena mostra dos 85 correios eletrônicos vistos por CAMBIO revela a importância do Brasil para a agenda internacional das Farc, levada a cabo por Raúl Reyes até sua morte, e não há mais dúvidas de que o “Padre Camilo”, para afirmar a estratégia continental da guerrilha, aproveitou a conjuntura criada pela ascensão de Lula e de seu influente Partido dos Trabalhadores para chegar até as mais altas esferas do Governo.

E se é certo que os e-mails são apenas indícios de um possível compromisso do governo Lula com as Farc, visto que nenhum funcionário enviou mensagens individuais a algum membro do grupo guerrilheiro, as perguntas suscitadas com relação ao conteúdo dessas mensagens exigem uma explicação do Governo brasileiro.

Os contatos das Farc

A expansão das Farc na América Latina não envolveu apenas funcionários dos governos da Venezuela e do Equador, mas também comprometeu destacados dirigente, políticos e a cúpula do Partido dos Trabalhadores brasileiro. Ademais, o grupo guerrilheiro manteve contato com procuradores e juízes do Brasil.

- José Dirceu, ex-ministro-chefe da Casa Civil.

- Roberto Amaral, ex-ministro de Ciência e Tecnologia.

- Erika Kokay, deputada federal (PT-DF).

- Gilberto Carvalho, chefe de Gabinete da Presidência da República.

- Celso Amorim, chanceler.

- Marco Aurélio García, assessor para assuntos internacionais da Presidência da República.

- Perly Cipriano, subsecretário da Promoção dos Direitos Humanos

- Paulo Vanucci, ministro da Secretaria dos Direitos Humanos.

- Selvino Heck, assessor presidencial.

[O conteúdo das mensagens a seguir foi mantido no original em espanhol]

SECUESTRO DE NOVARTIS

20 de septiembre de 2001

De: Jorge Briceño ‘Mono Jojoy’

A: Secretariado

Edwin, viejo conocido comandante de La Policarpo junto a Julián, se robaron medio millón de dólares por una parte y 700 millones de pesos por otra, del secuestro de Novartis. Se tiraron el negocio que estaba planeado para 10 millones de verdes. Para completar, se armó un lío con México, Suiza y Brasil porque no entregábamos a los tipos. Hablé con representantes de esos países y acordamos que nos daban medio millón de dólares más y nosotros poníamos en libertad a los dos señores. Ordené soltarlos y hasta ahora no han pagado. Si se hacen los pesados pienso asustarlos”.

INVITACIÓN AL CAMPAMENTO

12 de junio de 2005

De: ‘Raúl Reyes’

A: ‘José Luis’

“Al vocero de Brasil hay que invitarlo a que nos visite aquí y explicarle que en función de construir definiciones se hace imprescindible su conversación con el Secretariado. Decirle que tenemos formas seguras de recibirlo en nuestros campamento sin que sea registrado por las autoridades colombianas”.

APOYO FINANCIERO

6 de julio de 2005

De: ‘Cura Camilo’

A: ‘Raúl Reyes’

“Solidaridad recibida durante el primer semestre de 2005: diputado Paulo Tadeu US$ 833,33. Sindicato de la Empresa de Energía de Brasilia US$ 666,66. Corriente Comunista Luis Carlos Prestes US$766,66. Señora Solene Bomtempo US$ 250,00. Concejal Leopoldo Paulino US$ 433,33. Sindicato de la Empresa de Acueducto de Brasilia US$ 33,33″.

EXTRADICIÓN DE CAMILO’

17 de septiembre de 2005

De: ‘Raúl Reyes’

A: ‘Roque’

“Bastante significativa la solidaridad de los partidos comunistas de Brasil y de otros países con la lucha de las Farc en el empeño de impedir la extradición del ‘cura’ (Francisco Medina, ‘Cura Medina’). Existe en Brasil un importante grupo de amigos solidarios con nosotros en los que hay sindicalistas, maestros, congresistas, ministros, abogados y personalidades ocupados de presionar la libertad inmediata de Camilo”.

EL EMPLEO

17 de enero de 2007

De: ‘Cura Camilo’

A: ‘Raúl Reyes’

“El lunes 15 inició ‘la Mona’ su empleo nuevo y para asegurarla o cerrarle el paso a la derecha por si en algún momento les da por molestar, entonces la dejaron en la Secretaría de Pesca desempeñándose en lo que aquí llaman un cargo de confianza ligado a la Presidencia de la República”.

GIRA POR BRASIL

15 de febrero de 2007

De: ‘Cura Camilo’

A: ‘Raúl Reyes’

Los responsables de organizar la gira del camarada Carlos Lozano son: Albertao y Pietro Lora en Guarulhos, São Pablo y Río. En Brasilia: Paulo Tadeo, Erica Kokay. Para la actividad de Río se apoyarán en el ex diputado Federal Milton Temer, del Partido Socialismo y Libertad. Y en Florianópolis un diputado estadual que ellos ayudaron y está dispuesto a ayudar”.

ENCUENTRO CON MINISTROS

23 de febrero de 2007

De: ‘Cura Camilo’

A: ‘Raúl Reyes’

“La defensora pública le está organizando a ‘la Mona’ un encuentro con el Ministro, el Viceministro y el principal asesor de la Secretaría de Derechos Humanos vinculada a la Presidencia, en su orden Paulo Vannuchi, Perly Cipriano y Dalma de Abreu Dalasi, que es un prestigioso jurista al que el ministro relator le tiene pavor. El viceministro Perly hablará con el presidente de la Comisión de Derechos Humanos de la Cámara Federal. Serán visitadas entidades importantes que nos apoyaron, comenzando por la Comisión Brasileña de Justicia y Paz”.

ACTUAR CON CAUTELA

14 de abril de 2007

De: ‘Cura Camilo’

A: ‘Raúl Reyes’

“Debo actuar con cautela para no facilitar al enemigo argumentos que lleven a cuestionar el refugio. En ese sentido, el haber conseguido el traslado de ‘la Mona’ y ‘la Timbica’ para la capital del país, ha sido importante. Ese bajo perfil lo mantendré hasta la neutralización. Obtenida esta, tendré pasaporte brasileño y lo primero que debo pensar es en irlos a ver”.

Julho 25, 2008

Live TV Online

Aqui vai uma ótima dica para você, caro internauta, que não tem recursos nem paciência para assinar o pacote mundo da SKY. Para os que já assinaram, a tentação de passar longe dos documentários ennuyants da TV5 francesa estão com os dias contados.

O link é esse, para a Live TV Online.

Julho 22, 2008

Change you can believe in

Há quem diga que a internet pode decidir as eleições norte-americanas em novembro, fato em que pouco acredito. No entanto, é inegável que a Rede abriga um novo conceito de ativismo político e promove a circulação de notícias fora do mainstream, por assim dizer.

O “Fight the smears”, site hospedado na página oficial do candidato Obama, tem o propósito de dirimir algumas e-farsas semeadas a esmo. Uma delas é que Obama não seria norte-americano; Canadá e Quênia são cotados como prováveis locais de nascimento. Para desfazer a confusão, o Fight the smears deixou claro que Obama fez questão de digitalizar e exibir na Rede sua certidão de nascimento, pulverizando, dessa forma, qualquer boato. Obama tomando posição firme? Não, não é bem assim.

O blog Atlas Shrugs, da repórter Pamela Geller, publicou o relatório final sobre a análise da certidão de Obama, originalmente publicada no Fight the smears. A conclusão parece simples: trata-se de uma grande farsa amadora e primária. Relevo que o analista se expôs com o nome de “Techdude”, o que compromete a veracidade do exame. A versão de Geller é que o técnico o fez por segurança, visto que, no decurso do trabalho, ela teria sido intimidada com depredações em seu carro, ameaças de morte e até um coelho morto pendurado na porta de sua casa. Investigação séria presume gente séria, não escondida sob pseudônimos.

Não cabe aqui fazer ilações sobre o que teria motivado Obama a alterar seu registro de nascimento. Acredito que a campanha eleitoral, nos moldes atuais, desvirtue a Política com pê maiúsculo. Os departamentos de Assessoria de Imprensa, Marketing e Estatística ganharam peso nunca antes imaginado. Quando a imagem vale mais que o produto, o eleitor se vê tentado a comprar apenas o belo discurso ou jingle ou imagem. A escolha do eleitor não passa pelo campo racional, mas, se eleito for, o candidato governa com a racionalidade peculiar da política. Isso, no longo prazo, pode trazer conseqüências irreversíveis.

Julho 11, 2008

It’s only Rolling Stones, but I like it

LONDRES, 11 JUL (ANSA) – O músico Ronnie Wood, guitarrista dos Rolling Stones, abandonou a esposa, Jo Wood, com quem estava casado há 23 anos, para fugir com uma garçonete russa de 18 anos.
Segundo o tablóide britânico Sun, a adolescente Ekaterina Ivanova já se transferiu à residência de Wood na Irlanda, enquanto a ex-mulher voltou a morar com a família, nos arredores de Londres.
A história de amor entre o excêntrico guitarrista de 61 anos e garçonete nasceu há cerca de três meses, quando os dois se encontraram pela primeira vez em Londres, em ocasião da estréia européia de “Shine a Light”, documentário do cineasta Martin Scorsese dedicado aos Rolling Stones.

Julho 10, 2008

Alguns comentários sobre o exercício de tradução inglesa

Assim como não há sombra se não houver um objeto, não existe linguagem se não houver uma idéia. Quanto mais distante estiver a sombra de seu objeto, tanto menor sua nitidez. Da mesma forma, quanto mais distante estiver a linguagem de sua idéia, tanto menor sua clareza.

Ricardo Schütz*

A citação acima deveria estar enquadrada na parede do local de trabalho de qualquer tradutor profissional ou aventureiro. Pode-se inferir dela que a linguagem, em sua essência, serve-nos como ferramenta para expressar determinada realidade material, de objetos palpáveis, visíveis e nomináveis. É a partir dessa base que outra realidade – de pensamentos abstratos, invisíveis e conceituais – se desenvolve.

Vamos partir do pressuposto de que as pessoas se relacionam com essas realidades, ou a idéia que temos delas, de forma distinta e com diferentes vieses. Poderíamos citar inúmeras variáveis que permitem essas distorções – educação escolar, ambiente familiar, experiência de vida, poder aquisitivo e, por que não, a própria estrutura da língua materna. Poderíamos, mas…

Mas, seguindo o conselho do velho imperador e filósofo Marco Antônio, atenhamo-nos à essência das coisas: você deve redigir sobre aquilo que lhe é mais caro, que está, de preferência, mais próximo de sua realidade. Isto não é determinismo, porém todo candidato a tradutor precisa conhecer suas próprias limitações de percepção. Quanto mais distante estiver o texto do seu universo, mais difícil será falar sobre ele. E só falamos bem daquilo que conhecemos.

Seguir à risca a indicação do autor das Meditações é, antes de tudo, evitar teorizações e volteios desnecessários como os que fiz nas linhas acima. Vá ao encontro do cerne do texto, morda a jugular da questão e, em bom inglês, do not waffle[1]. Fica aí uma primeira recomendação. Vamos às outras:

  1. Instrumental de trabalho

A intenção aqui não é impor uma lista de materiais sem os quais você não seja capaz de traduzir, mas apenas indicações que, talvez, facilitem seu trabalho:

a. Lápis, papel e marca-texto. Em se falando de tradução, deixe o papo eco-chato e biodesagradável de lado e imprima o texto sobre o qual você se debruçará por algumas horas. Não se prive de rabiscar, puxar setas e grifar o que for necessário quando imergir no conteúdo. Essas anotações registram a evolução do trabalho e as alterações feitas ao longo do tempo. Além disso, elas serão valiosas na hora da composição final.

b. Local de trabalho. Dispenso falar que seu “espaço vital” precisa de mesa, cadeira, estante e silêncio. Mas, além disso, adote alguns rituais ao pôr a mão na massa: para aquecer, ouça rádio, música ou veja algum programa de TV. Em inglês, é claro. Nada muito demorado nem importante; aproveite esse momento para se concentrar e estimular o cérebro a pensar naquele idioma.

  1. Dicionários, pais de curiosos como você.

Sim, disse dicionários no plural. Tenha em sua estante, de preferência, quatro deles: dois monolíngües (os meus são Webster e Cambridge), um bilíngüe (há uma edição de Oxford especialmente para estudantes brasileiros) e um específico, que pode ser de phrasal verbs, collocations ou de idioms.

Tome cuidado com os bilíngües, em especial com o Michaelis. Geralmente, apresenta uma seleção pobre e confundível de sinônimos e significados. Agenor Soares dos Santos, diplomata aposentado e autor do Guia prático de tradução inglesa, faz o seguinte comentário sobre essa modalidade de dicionário:

A dificuldade inerente a todos [os dicionários bilíngües] são os termos chamados culture specific (…). São lexemas cujo significado nem sempre se esclarece bem com uma ou várias formas na língua de chegada: o autor pode ter necessidade de oferecer uma definição ou explicação, aproximação ou adaptação, e quase sempre exemplificando.[2]

Há também as versões online e em software de dicionários. Da última categoria, destaco o Merriam Webster. Talvez você precise de algum outro site, especializado em termos mercadológicos, por exemplo. Listo aqui alguns websites importantes:

a. American National Corpus: http://AmericanNationalCorpus.org

b. Collins Sampler of the Bank of English: www.collins.co.uk/Corpus/CorpusSearch.aspx

c. Corpus do português, de Mark Davies, da Brigham Young University, e Michael J. Ferreira, de Georgetown University: www.corpusdoportugues.org

d. OneLook, site que oferece busca em vários dicionários de língua inglesa: www.onelook.com

e. Web concordancer: www.edict.com.hk/concordance/

f. WordWeb, dicionário eletrônico para consulta pela internet ou em software: www.wordwebonline.com

g. Fallacy Files: www.fallacyfiles.org

h. Dictionary.com: www.dictionary.com

  1. Traduza idéias, não palavras.

Ricardo Schütz estabelece uma definição curiosa entre redação e tradução:

Redigir (…) é a arte de criar uma representação de fatos do universo e traduzir é a arte de recriar esta representação, de reestruturar a idéia nas formas que a língua para que se traduz oferece e sob a ótica da cultura ligada a essa língua[3].

Esse excerto auto-referencial dispensa maiores comentários, mas propõe um novo foco de luz sobre o ofício: a linha que separa o redator do tradutor é tênue e intercambiável. Traduzir é, também, tecer um novo tecido semântico. Transpor uma representação de fatos de um universo para outro significa traduzir pensamentos, antes de tudo. A correlação se dá no plano das idéias, não no das formas. Por isso, se um dia você quis traduzir um texto palavra por palavra, guarde esse segredo e não o conte a ninguém.

  1. Etapas do processo de tradução

Costumo dividir a tradução em quatro etapas. Não preciso frisar que você não precisa seguir à risca essas indicações, mas talvez elas lhe ajudem a melhorar a organização do trabalho.

ETAPA UM:

Primeiros contatos. Leia o texto completo, evitando pausas mais alongadas. Pare somente se a incompreensão de uma frase ou parágrafo impedi-lo de prosseguir. A intenção aqui é apreender a idéia geral do texto. Afinal, trata-se do quê? Qual (quais) área(s) abrange? A linguagem e o tema lhe são caros? Aproveite esse primeiro contato para pesquisar características básicas do assunto. Se o livro fala de um gráfico em cauda longa, por exemplo, procure o formato e o significado do termo. Ao final da leitura, escreva em algum lugar suas impressões e qual é, em sua opinião, a idéia central do texto. Guarde essa nota.

ETAPA DOIS:

Imersão. A idéia geral será desmembrada em unidades menores, como blocos de texto e parágrafos. Essa é a leitura mais demorada e trabalhosa. Duvide de seu vocabulário, vasculhe dicionários atrás de sinônimos, pesquise sobre outros assuntos que aparecerem. Quando for ao dicionário, abra primeiro o monolíngüe, de preferência. Não tente traduzir o vocábulo logo de primeira: deixe-se levar pelo desafio, leia a definição e tente entender o conceito. Só depois, se sentir dificuldade, busque em um bilíngüe.

ETAPA TRÊS:

Verificação da idéia geral. A essa altura, seus papéis devem estar bem rabiscados e você, um tanto esbaforido. Se for necessário, faça uma pausa, procure decantar tudo o que aprendeu. Quando voltar ao texto, leia-o de uma só vez, parando apenas para verificar as anotações que fez ao longo da tradução. Procure checar se as idéias menores, juntas, desembocam naquela primeira idéia que você depreendeu. Em geral, há algumas distorções. Você deve voltar e conferir em quais pontos o entendimento não foi tão claro, e repará-los.

ETAPA QUATRO:

Edição. Depois da segunda etapa, essa é a que vai lhe tomar mais tempo. Afinal, você deverá reestruturar as idéias e a representação de fatos do universo que o texto apresenta, compondo uma obra em cima de outra. Tome cuidado com a composição, pois, como alerta Ricardo Schütz,

O português da cultura brasileira (…) é uma língua que muitas vezes soa bem quando apresenta uma idéia vaga, além de permitir uma maior flexibilidade na formulação de frases e ter uma tendência a usar frases mais longas do que o inglês.

Por isso, verifique se o texto traduzido está inteligível, em primeiro lugar. Em seguida, se ele dialoga com a idéia específica do parágrafo; por fim, se está de acordo com a idéia central. Nem sempre é fácil averiguar essas correlações. Deixe o texto final descansando, dê um tempo para o distanciamento crítico, peça para alguém de confiança ler a composição. Aqui entra seu estilo de trabalho e edição.

Edite o texto quantas vezes for preciso, mas sempre tenha em mente um prazo. Não há trabalho com tempo indefinido; mesmo se não lhe for dado uma meta, crie uma. Com o tempo, a prática vai incrementando sua produtividade. Na checagem final, procure por trechos com falta de clareza. Em geral, elas se enquadram nos seguintes quadros:

  1. abrangência excessiva e uso de palavras desnecessárias.
  2. frase excessivamente longa com assuntos desconexos.
  3. falta de pontuação.
  4. inversão da ordem direta da frase.

Para iniciantes, uma tradução nunca fica inteiramente pronta; por isso, use essas oportunidades para se aperfeiçoar – peça feedback aos amigos, compare originais de obras clássicas com suas respectivas traduções, e veja quais recursos foram usados para escapar de trechos mais árduos. Pratique sempre que puder; você só tem a ganhar.


* In: SCHÜTZ, Ricardo. “Portuguese and English contrast contrasts in writing – how to translate /Contrastes de redação entre português e ingles – como traduzir”. Extraído de www.sk.com.br, sem pedido de autorização de Schütz & Konama. Acessado em 28 032008.

[1] Tradução possível: “Não encha lingüiça”.

[2] SANTOS, Agenor Soares dos. Guia prático de tradução inglesa: como evitar as armadilhas das falsas semelhanças. Edição revista, ampliada e atualizada. Rio de Janeiro: Elsevier, 2007. p. 13.

[3] SCHÜTZ, Ricardo. Op. cit.